o poeta não nega o que escreve

o poeta não nega o que escreve

(não importa o nome que assina)

 

trata-se de um poeta talvez démodé

(é sóbrio? é sério? que melodia anuncia?)

mas não tem moldes da velha rima

senão ocultas por descuido

e picardia

 

não chega a ser triste

o descontentado poeta:

faz chistes de avesso azo

faz armadilhas de poesia

(e mesmo que não haja hoje

quem delas ria

caça palavras que esperam

aguardam escapar

de dicionarizada agonia

 

(poemas são curvas que os fatos fazem

espasmos

entre a memória e a memorabilia

:

escorrendo dos dedos aos olhos ouvidos

poemas possuem visgo de oftalmofonia

ultrapassam

singulares e simples

qualquer fantasia)

MEKHANÉ AMOROSA

o amor

quando

se põe

a nos

consumir

 

o amor

quando

nos seduz

 

na mais

deliciosa

miragem

o amor

quando

nos toma

a vista

e o horizonte

 

o amor

quando

nos deduz

 

da mais

infante

imagem

o amor

quando

nos devolve

a nosso

desejo

 

o amor

quando

nos reduz

 

à mais

furiosa

vertigem

D’APRÈS DO HOJE

a vida
é sempre
hoje : nós é que somos

rinocerontem

somos a manhã de manhã

: é estando indo (e vindo) ao mundo
que a ele nos damos
entramos em seus planos