o ato de desenhar
idéias assemelha-se
por vezes
a um ritual de caça

uma palavra
(ou uma manada
delas)

vaga nas
planícies
de uma
fazenda de ar

(e nós
agri (doces) cultores
fazendeiros do ar

sedentários (bárbaros)
admiradores da alma

sentimos a
fome ancestral
da palavra nova)

(: palavra
bicho ingênuo (áporo)
que deus faz brotar
(sacro ofício)
da boca pra fora)

:

devemos nos acercar
da palavra (daquela
pela qual se guia
a manada) mas
como é difícil distingui-la
entre tantas peles
de lobos e cordeiros

somente é possível
aproximar-se
cercando-se de cuidados

é preciso fingir
(a) hora que ela é comum
(a) hora que ela é sagrada
– entre um ponto e
outro
tentar descobrir
de que sub instância
é feito o seu nada)

chega mesmo a hora
em que é preciso dar
um bote
na palavra (o fazendeiro
sibil-vacilante
à espreita)

capturá-la
de uma só vez
numa única bocada
(caçador macunaímico
: chega uma hora em
que não pode ter escrúpulos
nem
nenhuma espécie de caráter)

cada poema
guarda as palavras
caçadas (imoladas
despeladas destrinchadas
esquartejadas : deixadas

prontas para serem saboreadas) de uma maneira
diversa
(a caça é espreitosa
e o poema – o caçador conhece
cada recanto de sua fazenda de ar – é
oportunista (inclusive maldoso
e perverso : especialmente aquele que é belo)

(há (é claro) poemas fotossintéticos
canibais respeitosos

há mesmo
poemas tão miméticos
que não perdem de vista
as verdades eternas

: densas estrelas anãs
recontam infinitamente
a glória de ser
a certeza dedicada de cada sol
e sua equidistância (pura errância)

há poemas tão pequenos
(bactérias etéreas) e epopéias
gidantescas – memórias de elefantes
cantos de mil baleias)

: serpentina eterna
voz de víbora (sedentário caçador
estendendo sua rotina) bem-vinda
às mil bocas indistintas
de nosso inferno

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