A aventura é o mar ou essa forma
Que se forma depois, que vai viver
Na memória dos dias?

Egito Gonçalves

a vida inteira
procurar aquela coisa – a coisa –
que nos começa

e encontrar à porta de casa
o mar
que nunca cessa:
oceano que se transforma em ar
e – maresia – nos corrói
entranha-nos ao nos atravessar

nosso mar (também salgado) é mais impessoal
é semi-desumano: ascese de quem não navega
festa mais simples de água peixe sal (não é mar de mitos
não oculta monstros infinitos
nem tesouros de ouro jóias dobrões de prata)

é mar puro
água apenas mareal (e se escorre em nossas veias
é porque não nos foi dado chão
senão no barro de que fomos tomados
emprestados)

sim
é um mar (que guarda ainda lágrimas de mães e esposas
e sangue de irmãos e pais

aquela melancolia séria
da miséria do caiçara)
como todos os mares (por mais distantes): malabar
um mar
de párias

*

aqui
à minha frente
o oceano em vão: separa duas índias
isola duas áfricas

(estende-se o palco da ação divina
de um lado a brisa que afaga
de outro a crina que fustiga
cabeças de pedras
ou estirões de areia
infinita)

eu (vivo a vida inteira os limites da oceania
desta península que ameaça sempre invadir a
água
mas deixa o mar escorrer (cardumes caóticos berços viveiros)
entre as pernas
e entre os braços

para dentro
para sempre)
sou paralelo
como farelo de alegria

tenho irmãos naquela ponta que o meu olho ronda?
que latitudes de querer quererão eles que eu fixe
(a que bel-prazer
de que
de qual
sextante alegre ou triste)?

Anúncios