SINGULAR BRASILIS

o problema de quem sai
da escala

é virar uma bala

perdida na multidão.

: ninguém sabe de onde vem,
para onde vai, nem como partiu.

(abala-se a bela bala, babela
bêbada, babelouca,

zanza zune zarpa,

e se vacila te leva de volta
até para a puta que te
pariu)

pode ser um pé-de-serra
manso, pode ser pólvora
em barril (o chamado (do) Brasil)

:

teco taco pataco
abalo do clarão mais claro)

:

breve é a vida e seu

d

i

s     ((s) ir)

p    (e) assar

a

r

o

 

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NATALÍCIO PÓS-CRISTÃO

spooky-fiesta
Insira uma legenda

sou de uma estranha
raça que nunca pôde
sentir dor : a dor com
que se me pega, malho,
moo, coo, faço virar
amor:

não o amor frouxo
que o romanço remoi,
o romance-de-flor,
as poses de tela,
amor-de-ideia,
humor-de-ator:

o amor que a dor
pela minha raça introduz
é amor ainda de luz,
mas de raiar tão forte
(como soi ser das auroras)
que sacode, feroz,
o olhar de quem o conduz

(algo assim como a dor
de um prego leva
cada cristão a manter-se
atado à sua cruz):

esse amor todo
feito de dor, minha raça
preza e assina: somos febre, sintoma,
somos gnose e vacina
cortando como vidro cristalino
a carne que já vem ferida,
magoada, rasgada, corroída,
a carne que já quase
não tem vida:

a bolha de barro
a quem se convida
tornar-se infinita

O CAOS DE NETUNO

quando voauma borboletadesenhano ar à sua voltauma forma(a sua)sem volta-a formaque deforma (descola)das asas daborboletaé invisível equaseimperceptível(levecomo se feitasóde ar- a forma que sedesprendedas asasde uma borb
Insira uma legenda

quando voa
uma borboleta
desenha
no ar à sua volta
uma forma
(a sua)
sem volta
:
a forma
que deforma (descola)
das asas da
borboleta
é invisível e
quase
imperceptível
(leve
como se feita

de ar
:
a forma que se
desprende
das asas
de uma borboleta
se dissolve
sem parar
:
num segundo
se confunde
com a brisa
que vem
do mar (o sopro que
sobre
sai
da boca de Netuno
ganha
contornos
etéreos
volutas devolutas
:
imensa o lepidóptero
revira-lhe o crepúsculo,
osso, masculatura), sem
secura : a asa refluxa,
repulsa, repuxa
:
acolhe (e oculta)
a linha que une (e desune)
o céu e o mar que se escondem
no horizantes.

TRAVESSIA (A TERCEIRA PONTE)

chrome_2016-04-02_09-25-10brilha a ilha,
é sol de meios
dias: águas separadas,
pistas pra muitos negócios,
ossos pra muitos ofícios
e os vícios, os vícios

vindo à terceira via,
os vãos e os desvãos,
a ilha é mais que só
o monte de pó
de pobre, que os montes
de minérios, os ferros,
os aços, os cobres:
a ilha é um monte de mulheres,
um monte de homens.

brilha a ilha,
e comove os olhares,
mas quem a olha
de cima quase
não sabe o que ou quem
vê (a pedra que foi de Pedro,
a mata que foi mato a dentro,
o mugido vago do arvoredo,
o povo todo com tanto medo)

: a ilha brilha e desafia
a força que vem dos mares distantes:
as correntes que levam ao largo,
ao longe o que nos encheria os olhos
e mataria nossa fome,
o royalty, a commodity, a opportunity,
e mais aquele monte de nomes
que não tem em tupi, mas que ainda
fazem a fama e a cama em Londres.

brilha a ilha, e na ponta de seu arco
uma íris desabrocha suas novas cores:
o que ontem era o cansaço do crepúsculo
agora é aurora, fibra de sol, músculo:
as cores de um espírito de santo
curando o nosso martírio ou enfim,
de vez, nos envenenando.