Poemas de Orlando Lopes recuperam em tonalidades contemporâneas o espaço e o tempo da ocidentalidade

Uma cidade “inefável”, um modus vivendi litorâneo, diálogos, ecos, ressonâncias de um modelo civilizatório e afetações de diversos campos e sistemas culturais. O local a partir do qual se fala é distante, periférico, desfocado. Pode ser Vitória, capital do Espírito Santo, algum ponto da costa africana, um porto na Índia, quem sabe até mesmo a China. Em todos esses lugares, a ocidentalidade propagou seus fundamentos éticos e suas institucionalidades, suas diversas moralidades. Em todos eles, provocou o surgimento de modos expressivos (como a poesia) e abriu a possibilidade de crises e rupturas sociais e culturais nos graus mais diversos.

Poeta e capixaba, caiçara e cientista humano, Orlando Lopes realiza estudos poéticos sobre uma realidade difusa e dispersa no ambiente da cultura pós-colonial.OCCIDENTIA é uma coletânea de poemas que explora a constituição da “mentalidade ocidental” no espaço da “alteridade brasileira”. O livro é um percurso lírico que, por um lado, recorre a expedientes e convenções da literatura ocidental, e que por outro desconstrói o horizonte de expectativas por eles comumente constituído.

Na passagem entre os 22 poemas que integram o livro impresso sucedem-se entonações subjetivas e sobreposições objetivas, construções memoriais e fabulações bioficcionais: usa-se uma subjetividade para explicitar a ocidentalidade que a atravessa e que lhe confere “substância”, espessura de real. Seja a percepção “dissoluta” de si mesmo (p. 33), a síntese de um bildungsroman caiçara (em “Fábula”, p. 31) ou a resistência aos estereótipos coloniais (em “Mudou-se o tema (onde o mar começa)”, p. 27), Orlando Lopes imprime uma dicção peculiar à expressão poética de inflexão latina, como talvez poucas vezes se tenha alcançado em língua portuguesa.

Em outros momentos, a identidade da persona que conduz o roteiro poético de OCCIDENTIA se dilui, abstrai-se para dar espaço à expressão da generalidade de uma ampla “condição humana”: partindo de uma autoconsciência muitas vezes corrosiva, alguns poemas chegam à representação da presença “irredutível” de um eu-lírico que se “percebe percebedor” do que acontece em seu interior, e de como ele mesmo afeta e é afetado pelo mundo exterior (“aceitaste / a vertigem / do mundo // e as suas / estranhas / maneiras / de ser”, p. 21; “sentes dores / de todo tipo / – as tuas / as dos outros / as do mundo inteiro – / mas não mais / te dilaceras / com isso”, p. 22).

Também singular é a configuração “constelar” de “Ética”, longo poema (p. 55-77) aglutinador de considerações tangentes às necessidades poéticas e filosóficas que sustentaram as investigações e as descobertas de uma poesia ainda jovem, mas amadurecida pelo exercício contínuo das possibilidades expressivas do português brasileiro. Escrevendo “sem o apoio da linha reta”, o poeta ultrapassa a lógica ordinária das causalidades e das teleologias (“encerremos / nossas / discussões / sobre / a lógica // exerçamo-la”, p. 57; “o rio / recorre apenas / a si mesmo / (torna-se círculo) / quando deseja / (para além da natureza) / tornar-se / infinito”, p. 67; “a língua se / contrexpande / larga lerda mole grande: tempestáculo / de um instante”, p. 77).

Visto – lido – de perto, OCCIDENTIA não é um manifesto, nem uma cartilha poética. É uma sucessão de constatações – líricas, poéticas, estéticas, artísticas – em relação a potências difusas da língua portuguesa, e do caráter profundamente ocidental de que esta se reveste.

Orlando Lopes é poeta, pesquisador, professor e ativista cultural. Nasceu em Perocão, aldeia de pescadores de Guarapari, no Espírito Santo, em 1972. Radicado em Vitória, publicou Hardcore blues – apocalyptic songs (1993) e participou de diversas antologias e coletâneas literárias. Licenciado em Letras, tem mestrado em Estudos Literários (com dissertação sobre Arnaldo Antunes) e um doutorado em Literatura Comparada na UERJ (estudando o poema “A Máquina do Mundo”, de Carlos Drummond de Andrade).