Poemas de Orlando Lopes para o catálogo de exposição “Amores Transcendentes”, realizadas na Galeria Ana Terra, em Vitória-ES, em 2009.

Artistas Plásticos e Visuais

Attílio Colnago
Dilma Góes
Fernando Gómez
Gorete Dadalto
Joyce Brandão
Júlio Tigre
Romilda Patez

Ouverture

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ai,
amar é transcender,
é continuar
mesmo deixando
de ser.

amamos: isso é fato,
isso é fado,
isso é fácil
: se o amor que sentimos
nunca é farto,
o que nos resta
senão mostrarmo-nos
expormo-nos
aos nossos
mais queridos
idos (os nossos
mais queridos
entes : nossos
divinos devires

nossos seres
totalmente
diferentes)

?

amar é
en
(x)
(a)ce(r)r
(ir (e vir
: vol)(t)ar
os dentes para si

e esperar
esperar
esperar

até morrer
de vontade
de querer

(amar é o que não se vê
mas o que se (faz : ) pres(s)ente)

ser (ur)gente

: amar é dar
as costas
para estar
de frente : é construir
ado(l)e(s)cer : é tornar-se
ir-se indo (até ser) olor

: é confluir e confessar
(tomar para si as dores
que de outra forma
ficariam por aí
flutuando em nosso mais
pleno ar

:

em nosso arfar).

amar é coisa perigosa,
força que atrai para alto-mar
(não sabemos a que(m) ele
nos entrega

não sabemos o que dele
podemos esperar).

o que
meu coração
guardou

pérgamo
e seda
que enreda)

:

(toda a
história
do amor

aquilo
que meu coração
não trai)

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2. JÚLIO TIGRE

 

UT PICTURA (MONO)MANIA

 

lá na velha casa (a velha alcova)
nas paredes escavadas
berenices saltam (mostram-se
contundentes
sejam lebres
leves ou perdidas
perdizes)

: dentes de comer com os olhos
(infernos de todo Dante : a paixão
em seus matizes mais delirantes)

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3. JOYCE BRANDÃO

lá atitude
:
aqui longitude
acolá altitude

desde ali
onde a vida
aflora (a vida
(se põe pr)a
fora: a que
mora e brinca
na nossa memória

(a memória
tão teimosa
tão cremosa

o retrós atroz
que nos transforma
nos desfaz
(desfia)
objetos de
histórias
tão pessoais)

a vida segue
até a ilha
: vai ver :
é Robinson
mudando
e indo morar
em Utopia

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4. ATTÍLIO COLNAGO

MADRIGAL CERVANTINO

no primeiro
amor da história
o amor vira carne

aprende a
(dis)simular
desgastes)

:

(no jardim
a delícia
dos delírios

restaura
o que corre permanente
risco de ruína

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5. REGINA RODRIGUES

na sua imensa
(sala de) espera
Penélope se ergue
fia e des
cobre : tece
a lenda nobre

dá ao tempo
mais que o
sobressalto:
dá ao tempo
nós e pontos
— dobras que evoluem
fios que refazem
e recobrem
o amado : fazem dele
mo(nu)mento
: rito ar(a)mado

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6. ROMILDA PATEZ

DUAS FACES DO AMOR

Poema para Ophélia (Ela que não espera)

no livro da vida escrevinha-se: urgência!
(a)tem-se à sede do amor (que)
não espera… busca ser: agora!

antes que a seiva seque o coração
vão-se perder dos dias grinaldas e (en)cantos
(a pálida melancolia em meio a rendas brancas)

a ausência com que o tempo (nos) consome
nada a consolar além das águas no corpo lânguido
deslizando bem suaves flores perfumadas…

(de olhos bem abertos
parar a ver o céu
e torná-lo única testemunha)

Poema para Penélope (“Ela que é longa espera”)

por mais que eu tenha pressa, espero…
isso não quer dizer que meu coração esteja seco ou vazio
: apenas diz que dorme

consumo os dias na espera: cada barco que chega
cada grito que ressoa nas águas: é o seu barco
é o seu grito é o seu grifo

a aurora te anuncia e o entardecer te apaga
mais uma noite… reviro os olhos e os lençóis
sinto-me o corpo quente de humores que derramaria por ti, em ti

perco-me nas madrugadas úmidas desfiando teias e tramas
espero o seu barco e o grito ecoando na aurora
que te anuncia (quanto a mim, faço-me calma e tolerante)

gasto meus dias e noites num eterno fazer e desfazer.
fio e desfio a vida lentamente: paro espero espairo expiro
dou um giro no vazio e desfaço (a solidão) o circulo vazio

7. DILMA GÓES

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sendo eu Penélope também
com muito prazer lhe digo
faço fita e augusta angústia
faço mito e arte na desdita

não recuso o que em mim germina
: minha feminilidade tão antiga
parto natural (em mim dura a
dura dor macia : a própria vida)

dividida: a sacra mater
o nácar tão maduro (o brilho chiaroscuro)
do que passa: vai fazer parte
de outra vida longamente urdida

alcançar pela trama a razão nova
o amor que justifica a nova vida
o gesto que ultrapassa e fica (a arte
dando meada e fio a quem nos fica)

assim nascer de novo: deixar-se ir o que marcou o dia
tecer um novo livro: levar a nova lida
reescreviver uma história: dar graças à alegria
: enlouquecer : para enfrentar o que nem mesmo Ulisses enfrentaria

8. RENATO MARIANNO

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A CLEPSIDRA DE NARCISO

a água me trai e me faz olhar (voltar) atrás
tesa, minha nuca nunca me distrai
me deixa ver o mundo onde
ele mesmo não sabe que vai (e fica)

ponho-me aceso nas cinzas de Narciso
meu torso é positivo, expositivo
(é nicho nítido do que tomo como siso
: é o que assina a condução do meu juízo)

os finos e delicados corpos de vidro
se transpassam e me imaginam : eu
pelo avesso me deparo (me depuro)
com o que (me tendo) me domina

a imagem que me encontra na líquida memória
(miragem? fantasia? em mim a busca que se in
verte: verga apaixonada ao sabor que pode ter
a vida: busca ver na arte o mapa para Utopia)

 

9. GORETE DADALTO

ao amor vivido em anos juntos
(somos) também o nosso amor
de filhos
e deles (o amor passado)
para nós

a imagem que nos ancestra
ante (sala ou câmara) cede
enérgica vontade (água) viva
que deixa (no vazio) em volta
a enorme saudade

manualidade de dois:
fotografia que trama
(pinta) e borda em tela
o gesto – a mão
o dígito (igitur)
que ultrapassa
a aparência (assepsia)
da fotografia

10. FERNANDO GÓMEZ

JOIE DE VIVRE

meio a meio
gene a gene
: fala a minha
língua (fala a
minha epiderme)

: em mim
fala Hermes
(pedra-nuvem
cristal-céu
homens-ru(í)nas)

ato cri-cri-cri
ativo (rã saltitânica
âmbito da razão:
marginalizo
assim
sentimento e pulsão)

crio uma escrita
(escrevo-me meu
filho : espontâneo
extemporâneo
prazer de divertir : fazer
o que havia esquecido
entre as dobras da razão
meio a meia: uma
outra vida: ilusão)

Vitória, 2009.

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